Devocional · Mateus 18
O que é o perdão segundo a Bíblia (e por que tentar esquecer não funciona)
Uma leitura pastoral de Mateus 18, com a meditação do Frei Gilson, para quem já tentou perdoar e a mágoa voltou.
Você já tentou perdoar. Já rezou pedindo isso. Talvez tenha ido à missa, recebido a Eucaristia, voltado pra casa decidido a virar a página — e na primeira lembrança a ferida abriu de novo, do mesmo tamanho.
E aí vem a pergunta que ninguém tem coragem de fazer em voz alta: "Se eu sou cristão, por que eu não consigo perdoar?"
Esse texto não vai te dizer que é fácil. Não vai prometer que a dor some hoje. Vai fazer outra coisa: te mostrar o que a Palavra de Deus realmente diz sobre o perdão em Mateus 18 — e o que o Frei Gilson, em sua meditação sobre essa passagem, ensina que muita gente nunca ouviu na vida.
Antes de seguir, assista à meditação completa do Frei Gilson sobre Mateus 18 (cerca de 4 minutos):
A pergunta de Pedro e a resposta que ninguém esperava
Pedro chega perto de Jesus achando que vai ser elogiado. Pergunta:
"Senhor, quantas vezes deverei perdoar meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?"
— Mateus 18:21 (CNBB)
Pedro estava sendo generoso. A tradição rabínica da época mandava perdoar três vezes. Ele dobrou e ainda jogou um pra cima. Sete.
Jesus responde:
"Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete."
— Mateus 18:22 (CNBB)
Setenta vezes sete não é uma conta — é uma hipérbole. É o jeito de Jesus dizer: para de contar. Perdão de verdade não tem placar. No instante em que você abre uma planilha mental do que o outro te deve, o perdão já não está ali.
E é exatamente nesse ponto que muita gente trava. Porque a mágoa não some — ela volta. E você acha que voltou porque não perdoou. Calma. Continue lendo.
A parábola do servo impiedoso (e por que ela te incomoda)
Em seguida, Jesus conta uma história curta e dura. Um rei resolve acertar as contas com seus servos. Aparece um que deve dez mil talentos — uma dívida astronômica, impagável em várias vidas. O servo se ajoelha, pede paciência. O rei vai além: perdoa a dívida inteira.
O servo sai dali livre. E na rua encontra um colega que lhe deve cem moedas — uma quantia ridícula perto do que ele acabou de ser perdoado. O que ele faz? Agarra o colega pelo pescoço, exige o pagamento e o joga na prisão.
Os outros servos veem aquilo, ficam revoltados e contam ao rei. O rei chama o impiedoso de volta e diz:
"Servo perverso! Eu te perdoei toda aquela dívida porque tu me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive de ti?"
— Mateus 18:32-33 (CNBB)
E o entrega aos torturadores.
Jesus encerra com uma frase que deveria fazer qualquer cristão parar para pensar: "Assim fará meu Pai celeste convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão." (Mateus 18:35)
A parábola incomoda porque expõe uma verdade que evitamos: nós queremos a misericórdia de Deus para nós, mas a justiça dura para quem nos feriu.
O que o perdão NÃO é
Aqui está, talvez, o ponto mais libertador deste artigo. A maior parte das pessoas que tenta perdoar e falha está perseguindo uma definição errada de perdão. Vamos limpar isso.
Perdoar não é esquecer. Esquecer não está no seu poder. A memória não obedece à vontade. Se alguém te disse que perdão é amnésia, te entregou uma cruz que ninguém consegue carregar.
Perdoar não é fingir que não doeu. A ferida foi real. Negar isso é mentira — e mentira não santifica ninguém.
Perdoar não é se reconciliar à força. Perdão e reconciliação são coisas diferentes. Você pode perdoar alguém e ainda assim manter distância prudente, especialmente quando há histórico de abuso, manipulação ou perigo. A Igreja sempre ensinou prudência.
Perdoar não é abrir mão da justiça. Há situações que pedem providências concretas. Perdoar não significa silenciar diante do mal nem deixar de proteger quem precisa de proteção.
Se você tirar uma única coisa deste texto, que seja esta: se você está tentando esquecer, você está tentando a coisa errada.
O que o perdão É, segundo o Catecismo
O Catecismo da Igreja Católica é direto sobre isso. Nos parágrafos sobre o "perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido" do Pai-Nosso, ele afirma que perdoar é algo que ultrapassa as forças do homem — só é possível pelo "coração que se entrega ao Espírito Santo" (CIC 2842-2845).
Leia de novo, devagar: só é possível pelo coração que se entrega ao Espírito Santo.
Isso muda tudo. Se perdoar fosse questão de força de vontade, seria injusto Jesus exigir isso de nós. Não é. Perdão é, na tradição da Igreja, um ato divino que acontece dentro de você quando você deixa de tentar fazer sozinho e abre espaço pra graça.
Frei Gilson explica isso de um jeito que vale ouvir: quando a alma se entrega ao Espírito Santo, a ferida não desaparece — ela se transforma. Vira compaixão. Você passa a olhar para quem te feriu com os olhos de Cristo na cruz, que dizia "Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem". E vira intercessão: você começa, sem forçar, a rezar por quem te ofendeu.
Esse é o sinal. Não é "esquecer". É a ferida virar oração.
Por que perdão é decisão, não sentimento
Frei Gilson insiste num ponto que muita gente perde: perdão é decisão, não sentimento.
Se você esperar sentir vontade de perdoar para perdoar, vai esperar a vida inteira. O sentimento vem depois — às vezes muito depois. O que vem primeiro é a decisão da vontade, diante de Deus, de não desejar mal a quem te feriu e de entregar essa pessoa nas mãos do Pai.
É como quem entra na água fria: o corpo não quer, mas a vontade decide. O calor vem depois.
Decidir perdoar não é dizer "está tudo bem o que você fez". Está longe de estar tudo bem. É dizer: "Senhor, eu não dou conta. Eu te entrego essa pessoa, essa ferida e essa lembrança. Faz em mim o que eu não consigo fazer."
Como começar, quando parece impossível
Não é um método mágico. É um caminho proposto pela tradição cristã há séculos:
1. Reconhecer a ferida diante de Deus. Não minimize. Não espiritualize antes da hora. Diga em oração, com palavras suas, o que aconteceu e quanto doeu. Deus aguenta a sua verdade.
2. Pedir o Espírito Santo. Literalmente. "Espírito Santo, eu não consigo perdoar [nome]. Vem fazer em mim o que eu não consigo fazer." É a oração mais honesta possível — e a Igreja ensina que é exatamente essa que move céus.
3. Rezar pela pessoa que te feriu, mesmo sem sentir. Comece pequeno. Um Pai-Nosso por dia incluindo o nome dela. Não precisa amar o que ela fez. Precisa permitir que Deus ame ela através de você.
4. Buscar os sacramentos. Se você é católico, a Confissão e a Eucaristia são onde a graça encontra a ferida. Não como mágica — como encontro.
5. Dar tempo. Perdão raramente acontece num evento. Acontece num processo. O sinal de que está acontecendo não é a memória sumir — é a lembrança vir sem aquele peso de antes.
"Assim fará meu Pai celeste convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão."
— Mateus 18:35 (Bíblia da CNBB)
Que o Senhor, que perdoou a dívida impagável de cada um de nós, te dê a graça de começar — hoje, com o passo que for possível hoje. Não precisa ser o passo grande. Só precisa ser o seu. O resto, Ele faz.